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O futebol, a Fórmula 1 e o relógio

Tiquinho é o artilheiro do Botafogo (Foto: Vítor Silva/Botafogo)

O Campeonato Brasileiro com pontos corridos é a maior furada. Daqui a pouco o Botafogo entra no texto, mas nem é só pelo desempenho quase de título deste ano que isso pode ser dito. É um campeonato longo e instável.

Um time, em qualquer circunstância, pode entrar em campo de um jeito diferente no jogo seguinte. São onze pessoas correndo atrás de uma bola, misturando técnica e emoção e, dependendo do envolvimento com a equipe, até paixão. Uma despistada e pronto, toma o gol e cai a adrenalina. Ou sobe, é transformada em sede de vingança e a virada acontece. Tudo dentro do tempo regulamentar.

E dos acréscimos, enormes acréscimos que resolveram aplicar no campeonato deste ano, que nem são só para compensar pausa para hidratação.

E lá vem o Botafogo: brilhando no início da competição, abre mais pontos em relação ao segundo colocado do que qualquer um, menos a matemática, poderia acreditar ser possível reverter. A matemática joga com o tempo, é a linguagem da física. E lá se vai o Botafogo.

Ninguém questiona que o Botafogo foi o time do campeonato, mesmo não levando o título. A questão é: como dar uma segunda chance quando isso acontece? Tem um modelo de competição que é melhor em todos os aspectos: o turno sagra um finalista, o returno outro e, sendo diferentes, disputam uma final. Botafogo estaria lá numa tentativa de ressurreição e o Palmeiras ou o Atlético Mineiro (chutados aqui na falta de paciência de fazer as contas) teriam oportunidade de confirmar a melhor fase.

Haveria torcida mais intensa nos dois turnos pela sagração de um finalista e ainda um embate final, com estádio lotado, na casa de quem marcou mais pontos no total. Emoção, dinheiro e mais justiça do que nesse longo e tenebroso campeonato em que mais se troca de técnicos do que de posição na tabela.

Na Fórmula 1 é diferente, mesmo uma grande instabilidade não gera rupturas tão grosseiras quanto de um jogo para o outro. Basta observar os dois últimos anos. Em 2022, Charles Leclerc, da Ferrari, começou o ano com a ilusão de que seria o piloto forte da temporada. Logo isso se mostrou uma falácia, mas ele esteve lá, competitivo, fazendo pole positions e subindo no pódio. Terminou o ano em segundo lugar, à frente de Sergio Perez, companheiro de Max Verstappen na campeã Red Bull.

Neste ano, Fernando Alonso surpreendeu frequentando o pódio no início da temporada. Era comum ver seu sorriso idoso no top 3. Ao longo do campeonato, sobretudo na segunda metade, o desempenho da equipe começou a cair, mas não a ponto de, mesmo sem pontuar em algumas corridas, despencar tanto assim na tabela: terminou em quarto lugar. Uma equipe de Fórmula 1 é muito grande e todo mundo está dentro do carro quando é dada a largada, mesmo que só o piloto segure o volante.

Por mais que grite da beira do campo, um técnico é só mais um. Lá dentro, nos treinos, todo mundo trabalha para que o time faça o melhor. No futebol, uma derrota acachapante desestabiliza todo mundo; na Fórmula 1, não afrouxa os parafusos.

O que os dois campeonatos têm em comum é o aproveitamento do tempo. Quanto mais rápido um carro, em menos tempo ele completa as voltas. Quanto mais rápido um gol, mais cedo muda a tática do time para segurar a vitória. Nos dois esportes, muitas vezes a torcida é pelo cronômetro: que ele atrase ou adiante, desde que permita uma mudança de resultados.

Neste campeonato brasileiro, sobretudo nas últimas rodadas, o time do Botafogo criou uma nova categoria de tempo de jogo. Além de primeiro e segundo tempos, prorrogação e acréscimo, o torcedor da estrela solitária passou a pensar no momento Hora de Dormir. Quem soube calcular esse tempo dormiu feliz muitas noites, tendo fechado os jogos com o time campeão da partida. No dia seguinte acordava com o placar real nos noticiários esportivos.