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Governos S.A.

Tem aquela animação da Pixar com a Disney, Monstros S.A., que mostra um pouco do que tem acontecido com alguns governos, sobretudo no Brasil. A empresa que dá nome ao filme é de bichos-papões que assustam as crianças do planeta todo porque precisam dos gritos de pavor para fornecer energia ao mundo dos monstros. Quanto mais gritos, mais energia no galão que vai para as refinarias e chega às casas das pessoas.

O plot, como está na moda dizer, ocorre quando uma criança entra no mundo dos monstros. Elas são tidas como contagiosas, o toque é mortal para os monstros. As diretrizes de segurança são de alto padrão para evitar contatos assim. Parece o povo para alguns políticos.

Em meio à trama, o ponto que interessa a este texto está no riso da criança. Quando ela chora e grita ocorre uma oscilação de energia no apartamento dos monstros protagonistas, mas quando ela ri a ponto de gargalhar, todos os vizinhos acendem e as luzes chegam a queimar na sobrecarga.

O governo Bolsonaro se alimentou desse grito de pavor. Quanto mais solapava o povo, mais se vangloriava no cercadinho intocável que só os monstros podiam acessar. Se um grupo parava de gritar ou se esses clamores eram ocultados pelos grandes canais de comunicação, o governo dava um jeito de abrir outras portas para incitar o medo.

Desde o ano passado tem sido um pouco diferente. Ainda há medo, gritos de pavor, mas bem menos e algumas risadas também. Difícil mudar rapidamente o que foi feito desde o golpe de 2016, mas alguns passos mais acertados têm sido dados. Alguns ainda muito apavorantes, como os da Educação, com um sinistrério ainda alinhado aos setores privatistas, mas a justiça (social e além) tem sido buscada e isso dá energia ao país.

Faltam gritos, mas não de pavor: de protesto. As ruas ainda estão vazias e o próprio presidente Lula pediu que a pressão fosse feita pela população. Os grupos de ultradireita se organizam pelas redes sociais e fazem até cursos para se engajarem em movimentos, como na Conferência Nacional de Educação (Conae), realizada a partir deste final de semana em Brasília. A esquerda precisa aprimorar o uso desse espaço digital e também ocupar o que sabe desde outros séculos: o espaço real público e coletivo.

Entre gritos apavorantes e risos, a Argentina está na frente do Brasil. Em um vídeo que circulou esta semana, no intervalo de poucos segundos uma mulher passar atrás do repórter gritando por liberdade, carajo!, seguida de um rapaz mandando a velha fascista calar a boca. O jornalista quase não se contém. Os suprimentos de energia se abastecem por lá com grande velocidade. Se o Brasil não é para a amadores, a Argentina tampouco.

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