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O sagrado e o sagrado

Para boa parte dos brasileiros, as manhãs de domingo são dedicadas à religião. Na missa ou no culto, indivíduos e famílias trocam a possibilidade de dormir até mais tarde na única folga semanal para chegar cedo ao lugar de oração. Alguns às sete da matina, outros às oito, entram, sentam, cantam, rezam e saem para outro culto. Por décadas, o banco da igreja ou do templo foi abandonado às pressas para se chegar ao sofá antes da largada do grande prêmio de Fórmula 1 daquele domingo, geralmente às nove horas.

Desde os anos 1970, pelo rádio ou pela TV em preto e branco, depois colorida, muitos brasileiros se sentaram e, por vezes, se ajoelharam na torcida por Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, para citar os campões mundiais, mas sem esquecer de tantos outros brasileiros que, vencendo muito, como Rubinho Barrichello e Felipe Massa, ou nem tanto, aceleraram corações e mantiveram a fé tupiniquim por vários domingos ao longo do ano.

Houve quem mudasse de religião ou abandonasse as pistas desde que Senna morreu, em maio de 1994. Perderam grandes momentos de sagração à velocidade, os melhores deles protagonizados por Michael Schumacher, mas também com Mika Hakkinen, Fernando Alonso, Kimi Raikkonen e, mais recentemente, Lewis Hamilton e Max Verstappen. Homens de pouca fé, respeitem os que permaneceram fiéis às escrituras, mesmo depois que o portador das chaves, Bernie Ecclestone, as tivesse passado a um canal de televisão estadunidense, a Liberty Media.

Até com um campeonato cada vez mais dilatado (começando mais cedo, terminando mais tarde e com muito mais corridas), nem sempre mantendo as melhores pistas (como a de Portimão, em Portugal) e ainda com uma competição paralela que nada tem a ver com a corrida oficial (embora no início tivesse, valia a classificação para o domingo), os fiéis permaneceram atentos ao televisor, inclusive nos desnecessários Sprints do sábado, que contam pontos no campeonato.

Depois dos meses de espera entre o final de um campeonato e o início de outro, na busca pelo primeiro domingo de competição… a primeira prova é num sábado! A segunda também!!! Cadê a sacralidade!?

A segunda prova, na Arábia Saudita, coincidiria com o Ramadã e por isso foi antecipada para o sábado. A primeira, no Bahrein, para não desrespeitar o intervalo mínimo regulamentar entre duas corridas, também foi passada para o sábado. Em meio ao tanto que se negocia com os países árabes, grandes financiadores da mais importante categoria do automobilismo, vale a repetição: em um campeonato cada vez mais dilatado com mais e mais corridas, esses países não poderiam hospedar corridas em outras datas?

As duas sacralidades poderiam ser respeitadas, bastaria um pouco de ponderação. Os países árabes poderiam ser mais democráticos.

P.S.: Alguém já contou para o Nelson Piquet que o Ayrton Senna morreu? Ele continua brigando com o rival, ainda mais agora que perdeu o emprego de motorista porque o patrão também perdeu o de presidente.