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A bailarina e o soldado de chumbo

Para ter exata noção do que significou o desaparecimento de Gilson Dorico – adolescente de canelas finas e vento na cabeça – é preciso compreender Matias Barbosa. Mas, para compreender Matias Barbosa, é preciso antes conhecer Nova Iorque. Não uma Nova Iorque qualquer, mas a Nova Iorque descrita por Marshall Berman no último capítulo de “Tudo que é sólido desmancha no ar”.

Ali, o escritor – depois de uma jornada em que falou sobre a modernização de diversas metrópoles – mergulha na história da própria cidade. Mais especificamente, do Bronx, bairro onde cresceu. Num testemunho comovente, Berman relata a construção da Via Expressa Cross-Bronx, uma autoestrada que atravessou o centro do distrito, isolando vizinhanças e desestabilizando comunidades construídas por gerações. Sob a ação dessa espada que lhe rasgava o abdome – e sobre a qual milhares e milhares de motoristas passavam velozmente – a vida foi sangrando, deixando de fluir nas ruas, agora vazias e tomadas por sujeira e imóveis abandonados.

Pois bem. Também cortada por uma autoestrada, Matias Barbosa não é um ventre violentamente rompido pela espada. Matias é um bucho que cresceu em torno da lâmina. Nela, toda construção de identidade é coagulação insistente que tenta estancar uma hemorragia lenta. Mesmo o nome da via principal, a Avenida Cardoso Saraiva, é casca de ferida que secou sobre o frio metal, que reivindica outros nomes: Caminho Novo, União e Indústria, LMG-874. E a cada caminhão poeirento que passa – vindo sabe-se lá de onde, indo sabe-se lá para onde – a casca se rompe, sangra um pouco, para estancar mais uma vez.

Assim, ainda que o dia a dia simule o cotidiano de uma pequena cidade, o imaginário de cada cidadão é povoado por esses estranhos que passam, veem e são vistos, por vezes param. E se vão, deixando um pouco de si, levando um pouco de nós.

Na esteira da fantasmagoria criada por essa multidão de desconhecidos, o sumiço do rapaz – naquela manhã de uma segunda-feira dos anos 1970 – causou imenso alvoroço. Autoridades foram mobilizadas. A família foi assuntar em torno. Rapidamente surgiram boatos, com indivíduos cheios de razão, afirmando terem visto o jovem sendo sequestrado por um viajante, indo na direção X ou Y, dependendo do depoente.

Todos, evidentemente, mentiam por momentos de fama. A verdade, para quem tivesse olhos de ver, começava pelo mato amassado, pelas fossas apressadamente fechadas, pelas pilhas de destroços cuidadosamente amontoados. Marcas de despedida deixadas pelo circo, que por algumas semanas fizera a alegria dos matienses, mas que partira, antes do Sol raiar.

Algumas dezenas de quilômetros adiante, estacionada noutro bucho em torno doutra lâmina, encontraremos a caravana colorida, que começa a erguer suas paredes mágicas, enquanto o carro de som já anunciava, por vias poeirentas e tortuosas, que a alegria chegara à cidade. A reboque, chegava também o rapaz magrelo, de olhos arregalados, encantado com espetáculo que via renascer. Mais especificamente, encantado com a beleza de certa bailarina.

Gilson fugira atrás do circo.

A palavra é certa: atrás. Para o circo, era um problema. Dali a um tempo, não tardariam por encontrá-lo. O que deixaria aqueles valiosos profissionais da felicidade – tantas vezes vítimas da má vontade alheia – em prováveis maus lençóis. Era preciso convencê-lo a retornar. Após longo debate sobre quem seria o responsável por tão árdua tarefa, decidiu-se que o papel cabia ao palhaço.

Palhaço no picadeiro, pois quem se sentou para conversar foi um senhor de semblante sério, mas imensamente calmo. Ou seja, um palhaço verdadeiro, não um desses bufões tresloucados que arrastam seguidores ao desequilíbrio e à fúria. Ele colocou a mão direita sobre os ombros do rapaz e disse:

“Eu lembro de você em Matias. Foi assistir aos nossos espetáculos quase todos os dias. Estava na primeira fila, de olhos brilhando. Ficamos felizes com todo esse reconhecimento. Mas nos surpreendeu que você tenha vindo, no nosso encalço.”

Com o silêncio que se fez, Gilson esboçou uma explicação. O homem, porém, não havia terminado:

“Se quer mesmo fazer parte da família circense, você precisa entender uma coisa desde já: a festa brilhante apresentada ao público é só a superfície momentânea de um trabalho duro, desgastante. Alguns números são resultado de anos de treinamento. Vai chegar o dia em que, mesmo com tédio, cansaço e dor, você vai ter que repetir as mesmas coisas pela milésima vez. E, no fim, vai ter que sorrir.”

Sob o olhar atento do jovem interlocutor, o homem continuava:

“Há semanas em que chove o tempo todo, não vem ninguém e passamos por dificuldades. Independente disso, o dinheiro é pouco, o trabalho é muito. A estrutura é quase nada. Por exemplo: você frequentou a escola, mas aqui quem ensina as letras às crianças somos nós mesmos. Com o pouco que a gente sabe.”

“E isso”, continuou, “é quando tudo caminha bem. Na cidade em que estávamos antes de Matias, minha sobrinha mais nova – irmã da bailarina para quem você olha com tanta insistência – adoeceu. Passamos um aperto danado para conseguirmos atendimento. Tivemos quase que implorar. Sem as fantasias que encantam, somos sempre gente estranha em lugares estranhos.”

Com os olhos marejados, o rapaz já adivinhava o desfecho…

“O que quero te dizer, filho, com todo carinho, é: volte para casa. Aqui somos uma família. Mas não somos a sua. Seus familiares, sua escola, te esperam ansiosos em Matias. Ainda é cedo para voar tão longe. Deixe o tempo passar. Se o circo for mesmo teu destino, iremos nos encontrar…”

Nunca mais se encontraram. Gilson não subiu ao picadeiro. No entanto, aqui e ali, exerceu momentaneamente o honrado ofício de ator. Por vezes, encarnando o mesmo personagem vivido pelo homem que lhe dirigira aquelas sábias palavras. Elas eram uma verdadeira honraria. Até porque, voltar ao rumo certo pelas mãos de um palhaço é coisa das mais sérias a colocar no currículo.

            …

Estranhamente, enquanto penso nestes eventos, é Platão que vem à memória, com seu estupendo A República. Considerado um dos textos fundadores na história da filosofia, este livro é lembrado por abrigar a narrativa que ficou conhecida como “Alegoria da Caverna”. No entanto, é muito mais, configurando-se como um fantástico exercício de imaginação em torno daquilo que seria uma sociedade humana ideal.

Nos momentos de escuridão, quando até a razão é usada de forma irracional, a arte é facho capaz de nos fazer prosseguir

A despeito de tão grandes qualidades, essa obra comete, na minha percepção, um sério deslize. Num dos capítulos, os artistas são descritos como espalhadores de quimeras, que com suas belas fantasias deturpariam nossa percepção da realidade. Deveriam, por conta disso, receber braçadas de rosas, em honra a sua criatividade. Porém, em seguida, caberia expulsá-los da República utópica.

É bem possível que, com o passar dos séculos, muitas das ideias desequilibradas e extremistas de controle da arte tenham se inspirado neste trecho de Platão. Desequilibradas e extremistas são palavras exatas, porque – enquanto o filósofo propôs que Homero fosse presenteado com braçadas de rosas – muitos dos artistas que herdaram seu ofício se tornaram vítimas de índices de livros proibidos, da fogueira, da tortura, da morte. Por conta dessas ideias tortas, quantos palhaços e quantas bailarinas, tentando apresentar seu ofício nos burgos/buchos que se espalham pelo mundo, terão sido escorraçados pelos ignorantes e preconceituosos, que, no entanto, se acreditavam cobertos de razão?

Mas, como bem prenunciou o Estagirita tão só por escrever a Arte Póetica, Platão estava errado. Nos momentos de escuridão, quando até a razão é usada de forma irracional, a arte é facho capaz de nos fazer prosseguir.

Sob intenso bombardeio nazista, a população de Londres se desesperava escutando o noticiário triste através da rádio BBC. Foi quando alguém teve a ideia de chamar a Geni contra o zepelim dourado. Logo, a programação da BBC foi irrigada pela presença de poetas, músicos, dramaturgos, comediantes. Assim, a tensão se aliviou. A população londrina fez a dura travessia, no colo da bailarina. O nazismo, todo poderoso, se foi.

A arte, querido Platão, não é ilusão que mais nos aprisiona na caverna. A arte é luz própria que nos encaminha para o Sol. Que nos faz Sol. Então, nos momentos em que soldados de chumbo, cheios de hipocrisia e violência, cobrem o horizonte de nuvens carregadas, tenhamos uma certeza, irmãos: tal qual ocorreu com meu primo Gilson, bailarinas e palhaços bondosos nos guiarão por sobre os escombros, por cima do muro de nossas incompletudes, em direção a um amanhã feito de empatia, ciência, amor e luz.