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O homem integral

Segundo Marshall McLuhan, “o homem integral é sempre um desastrado numa situação especializada”. Como bom amante da obra de Charles Chaplin, a primeira coisa que me veio à mente ao ler as palavras do mestre canadense foi a clássica cena de Tempos Modernos, quando Carlitos enlouquece de tanto apertar parafusos. De fato, Chaplin construiu sua personagem precisamente na fenda percebida por McLuhan: figura profunda por demais, ela não consegue se adaptar ao mundo fragmentário da modernidade. A comicidade vem dessa inadaptação.

No entanto, as trapalhadas de Carlitos em meio à moldura sombria dos Estados Unidos à época da Grande Depressão são veículo de uma mensagem muito mais significativa. Elas nos alertam para o vazio do destino que estamos construindo… Assim, Carlitos é um desastrado diante de todas as especializações que por tantas vezes impedem nossa expressão integral enquanto humanos. Ele literalmente rompe com todas elas.

Logo, as fragmentações que tomam de assalto o mundo da produção são palco tão só do primeiro dos rompimentos: das fronteiras que dividem as linhas de produção, Chaplin parte para as que então dividiam norte-americanos e soviéticos (a cena da bandeira vermelha durante a passeata é um excelente exemplo disso) e para as que ainda dividem ricos e pobres, policiais e prisioneiros, felizes e infelizes… O gesto iconoclasta que a história protagonizada por Carlitos evidencia, no entanto, não é meramente destruidor: contém em si uma proposta e um fio de esperança, o da reunião dos fragmentos rotos da humanidade no reencontro de seu destino comum…

Eis, pois, a mensagem essencial do filme, que nos leva a meditar numa passagem da Alegoria da Caverna, exatamente aquela em que o liberto retorna ao antro para livrar os demais: Platão adverte que, neste momento, “estando ainda sua vista confusa e antes que os seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, fará que os outros se riam à sua custa”. Compreendemos, com isso, que McLuhan e Platão se encontram na simpática figura de Carlitos: um desastrado cavernícola que tropeça nas sombras porque seus olhos estão inundados de luz…

É de se notar, ainda, que Chaplin retrata o percurso que de fato marca a vivência de muitos personagens históricos que nos trouxeram mensagens das mais belas. Nos bastará, aqui, citar um: Van Gogh. O holandês inicia sua vida acalentando o sonho de se tornar sacerdote e auxiliar na construção de um mundo melhor. Acabou pintor. No entanto, as desastradas tentativas que faz para realizar seu idealismo são um testemunho comovente. De qualquer forma, Van Gogh consegue, por vias transversas, atingir o que desejava: a beleza que exala de suas pinceladas e de suas cores são mostras de que, enfim, ele trouxera às sombras algo do mundo de luz que brilhava em sua alma. Às vezes, a tensão que se acumula entre Logos e Phýsis é liberada na forma de trovão e poesia…

Também Carlitos, nas últimas cenas de Tempos Modernos, se acostuma à escuridão e faz florescer sua lição profunda… Quando sua jovem companheira parece vergar sob o peso de um mundo que teima em destruir os sonhos tão singelos acalentados pelo casal, ele se faz arauto da persistência para encorajá-la a seguir o caminho. E é assim que, peregrinos da luz, caminham em direção ao sol que brilha no horizonte…

O apelo à esperança que ecoa neste desfecho talvez seja uma advertência – nunca tardia – para que nos lembremos de que está na hora de revermos os passos tão seguros que temos dado em direção ao nada e, enfim, cambalear um pouco em demanda daquilo que possa representar a verdadeira felicidade…