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Aos alunos de ontem e hoje: muito obrigado!

(Foto: Michaël Crotto/Divulgação)

“Não tem jeito não, você vai ser professor!”. Foi assim que minha amiga Daracy, do alto de seus quase noventa anos, reagiu ao entusiasmo com que eu contava minhas primeiras experiências em sala de aula. Estávamos na primavera de 1998 e a bondosa senhora me lançava um olhar inteligente e divertido.

Eu, de minha parte, ainda estava meio apavorado. Algumas semanas antes, no dia nove de setembro, havia sido alçado à condição de professor. No susto. Após uma série improvável de eventos, acabei me tornando responsável pelas turmas de “Literatura” e “Língua Portuguesa” na Escola Estadual Evaristo Gonçalves Simas (Matias Barbosa). Aos 21 anos, ministraria aulas para alunos do 2º Grau. A maioria deles, pouco mais jovens do que eu.

No primeiro dia, estava com tanto medo que se alguém fizesse “Buuu!!!”, eu sairia correndo. Até por conta dessa insegurança, me tornei – de início – um professor excessivamente disciplinador. O controle rígido era uma forma de disfarçar minhas fragilidades. Também era parte de uma certa arrogância, uma certa sensação de que eu tinha algo muito importante para passar adiante.

O tempo se encarregou de me ensinar o quão desimportante sou. Com o passar dos anos e das “escolas” – em Matias Barbosa, Barbacena, Juiz de Fora, Diamantina e São João del-Rei – fui aprendendo o papel essencial da sala de aula, núcleo onde gerações diferentes dialogam sobre diversos conhecimentos.

Hoje, como me sinto feliz quando percebo em muitos alunos mais capacidade, mais brilhantismo, mais talento do que o pouco que tenho. Na verdade, acho que cada um de vocês tem algo a me ensinar e é também por isso que gosto muito de ser professor.

Há um conto de Jorge Luis Borges em que ele descreve o Aleph, que seria um ponto onde poderíamos contemplar o universo todo. A sala de aula é meu Aleph. Nela, tenho o privilégio de conviver com a multiplicidade humana. Uma multiplicidade que é muito mais do que os rótulos miseráveis que nossa cultura produz: cada um é único, cada um tem seu jeito de ser, cada um tem uma experiência para compartilhar.

Por isso, pessoal, neste Dia do Professor, quero agradecer a vocês por serem o mais importante presente de minha vida profissional. Peço também desculpas pelas minhas falhas, que certamente são muitas. E compartilho a maior das lições que a sala de aula me ensinou: “amar ao próximo” também significa “temos muito a aprender uns com os outros”.

Sinto-me um privilegiado por fazer parte do grupo que tem o papel de falar um pouco da realidade àqueles que vêm ao mundo “depois de nós”. Ao “passar o bastão”, saibam que ficarei feliz por aqueles que conseguirem seguir um caminho exato, digno, brilhante, etc. e tal. Mas ficarei imensamente orgulhoso por aqueles que, ainda tendo tropicado, levantarem. Que ainda tendo errado, tentarem. Que assumirem a própria falibilidade e buscarem, sinceramente, melhorar a si mesmos.

Há um texto de Chico Xavier que resume o que digo: “Admiráveis são todos os espíritos nobres e retos que militam com grandeza na Causa do Bem. Entretanto, não menos admiráveis são todos aqueles que se reconhecem frágeis e imperfeitos, caindo e erguendo-se, muitas vezes, nas trilhas da existência, sob críticas e censuras, mas sempre resistindo à tentação do desânimo, sem desistirem de trabalhar”.

Que este espírito da luta por se tornarem pessoas dignas seja o farol de vocês. Muitas bênçãos por serem uma das grandes bênçãos da minha vida.

Quero agradecer também a todos aqueles que me passaram o bastão. Peço desculpas se, por vezes, o deixei cair. Este pedido vale para muitos, mas principalmente para minha amiga Daracy: sem nunca ter sido inscrito em uma de suas turmas, você foi a melhor professora que tive. Muito obrigado por ter me mostrado o grande Aleph que é a vida!

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