Colunas

Pela luz dos olhos seus

Disney/Buena Vista/Reprodução

Encontrar na sala de aula seu lugar no mundo é muita sorte. Muita mesmo! O que a gente aprende todos os dias com cada aluno que atravessa a porta ou, agora no contexto pandêmico que vivemos, resolve abrir a câmera ou o microfone para compartilhar suas reflexões conosco é um presente que não tem preço.

Assim como as melhores situações nas quais me vi envolvida, eu também vim parar na sala de aula por um golpe de sorte. Trabalhava na antiga Rádio Panorama FM (que saudade!!) e fui responsável por receber uma turma de estudantes do recém-criado curso   de Jornalismo de uma faculdade há 17 anos. Fiz questão de mostrar a eles, em detalhes, cada cantinho da nossa emissora e compartilhar a sorte que tinha por fazer parte de uma equipe que era convidada a entrar todos os dias na casa de milhares de pessoas, que fazia companhia a dezenas de taxistas e motoristas em cada minuto do dia, que era responsável por embalar alguns romances nas noites nos carros e salas espalhados pela cidade. Acho que a paixão pelo rádio transbordou a olhos vistos.

Tanto que, algumas semanas depois, estava no ponto de ônibus esperando a hora de ir descansar quando uma menina, tímida, sem saber se devia ou não se aproximar (isso ela me confidenciou depois) chegou falando mansinho: “Oi, você é a Tâmara Lis do rádio, não é? Eu estive lá faz alguns dias com a minha turma de faculdade, e você mostrou tudo com muito carinho pra gente. E aí, ontem, quando estava saindo da faculdade, vi que estão com seleção aberta para professor de rádio. Pensei logo em você e, quando te vi aqui no ponto, resolvi te avisar do concurso”.

Eu nunca havia pensado nessa possibilidade. Embora a sala de aula fosse um dos meus lugares preferidos no mundo, já que eu gosto tanto de aprender, ainda não havia pensado que ensinar poderia ser igualmente prazeroso.

Neste dia, com essa informação, a Roberta mudou minha vida. Procurei saber tudo sobre o concurso, me preparai demais, encarei o frio na barriga e já faz 16 anos que estou lá, nessa mesma sala de sala (que já não é mais a mesma). Os colegas professores brincam que eu estava parada lá e construíram a faculdade em volta de mim…:)

Quando recebi, há muitos anos, uma homenagem por ser uma professora decana, levei um susto. Professores decanos, pra mim, sempre foram aqueles velhinhos que a gente olha como lenda… Mas olha só onde eu estava: entre colegas que admiro profundamente por compartilhar com generosidade a paixão pelo saber.

Hoje não consigo ver minha vida sem o prazer de compartilhar meus dias com meus alunos e colegas professores. Um dia no qual nada se aprendeu sempre foi, pra mim, um dia perdido. E, por isso, independentemente do cansaço, dos desafios, de algumas frustrações (elas existem e não são poucas) acredito que ainda vale a pena investir todos os meus esforços para seguir em sala de aula. Ensinando e aprendendo. Acolhendo e sendo acolhida pelo olhar de cada aluno que reconhece em mim uma aliada na busca por um futuro melhor no qual ele quer— e merece— viver.

A cada confidência trocada pelos corredores ou na carona de volta para casa (sim, eu sou daquele tipo de professora que já chega cheia de alunos do lado e vai embora também carregando sua turma no carro, graças a Deus!) percebo o privilégio que tenho de poder tocar almas. Oferecer ao outro o sentimento de ser visto, ouvido e reconhecido. E assim também me sinto quando convivo com muitos deles. Reconhecida. Enxergada. Acolhida. É justamente esse o presente que desejo a cada um dos meus colegas professores: que, muito mais do que aplaudidos e homenageados, sejamos vistos em nossa humanidade; reconhecidos como semeadores de sonhos.

Nós, professores, também precisamos dos olhos abertos de nossos alunos e colegas mestres para nos enxergarmos neles e vislumbrarmos ali a nossa oportunidade de escrever um novo futuro, para todos nós.

Relacionados
Colunas

Dez anos dos confins de uma glória

Em uma segunda-feira de julho de 2011 o Tupi iniciou uma jornada que desaguaria, quatro meses depois e há exatos dez anos, nos confins da glória: o título de campeão brasileiro de futebol. Naquele dia,…
Leia mais
Colunas

Equilibrar-se entre as injustiças

Quando me perguntam como é ser mulher negra, mãe de filho negro, pesquisadora no Brasil, e em Juiz de Fora especialmente, não consigo encontrar uma resposta mais clara para definir: é um eterno movimento de…
Leia mais
Colunas

Nem a Black Friday é sagrada

O cara sai do elevador e encontra uma árvore de Natal no hall do prédio. Poderia ter encontrado o porteiro, um vizinho ou até um xixi de cachorro de vizinho, mas encontra uma árvore de…
Leia mais

Notícias no e-mail