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Ninguém larga a mão de ninguém. Inclusive, a de Madalena

Hoje eu acordei com um soco no estômago. E se você ainda não sentiu esse baque, sugiro que respire fundo antes de clicar nesse vídeo. Antes mesmo de me levantar, assisti a esse trecho da reportagem, enviado pela minha irmã que, também perplexa, havia recebido de um amigo. Todos nauseados com a situação a que chegamos. Com a dimensão da dor que um ser humano é capaz de infligir a outro de forma intencional e, acredito eu, permanente.

No vídeo, somos apresentados à Madalena Silva, uma mulher de 54 anos que acabava de ser resgatada de condições de trabalho análoga à escravidão no interior da Bahia, na cidade de Lauro de Freitas. E nos engasgamos com suas lágrimas ao se recusar a tocar na mão da repórter branca pela vergonha da “feitura” do toque causado por sua pele preta. Ela chora de vergonha, de nervoso, de tristeza… Por ser quem é.

A repórter Adriana Oliveira foi extremamente sensível e tenta convencê-la de que são duas mulheres bonitas, embora diferentes, e não há razão para que Madalena se recuse a tocá-la. Mas certamente será necessário um trabalho mais intenso voltado para a recuperação da saúde mental e da autoestima tão fragilizada. Neste momento, me pergunto como podemos respirar aliviados com este engasgo na garganta.

Uma situação dessas não se sustenta sem a conivência de muita gente. Houve quem a considerasse “cidadã de segunda” e muitos outros que não se incomodaram ao ver uma mulher servir a outra família durante 50 anos, sem casa, sem família, sem a chance de viver seus amores e realizar seus sonhos.

A falta de incômodo que o racismo causa em grande parte das pessoas é, para mim, o maior dos problemas. Se estivéssemos diante de poucos canalhas dispostos a discriminar e diminuir outras pessoas por sua cor de pele, orientação sexual e/ou classe social, seria um problema enorme, mas com maior capacidade de enfrentamento. O problema real, na minha avaliação, reside no fato de que muitos não se deram conta da gravidade da situação ao encontrem Madalena servindo a todos durante cinquenta natais, cinquenta aniversários, de janeiro a janeiro. Viajando com a família em todas as férias, disponível 365 dias por ano para atender aos desejos de todos, menos aos seus. Tivesse ela outra cara, outra cor, outro sexo a situação não teria sido mais rapidamente notada? Certamente sim!

Fato é que Madalena estava justamente no lugar em que muitos acreditam que era mesmo  onde deveria estar. Fazendo exatamente o que outros tantos acreditavam que ela nasceu para fazer: servir. E como grande parte dos chamados “cidadãos de bem” usam para amenizar sua calhordice: aguentando firmes, ainda felizes e se sentindo parte de família.

Não, ordinários, nem Madalena, nem nenhum desses homens, mulheres e meninas que vocês já encontraram diversas vezes ao servi-los nos aniversários de sábado a noite na casa da patroa, cuidando das crianças do vizinho no domingo, arrumando o jardim de seu chefe no feriado de Páscoa ou, talvez mais perto, aí na sua cozinha enquanto o filho dela arde de febre em algum cômodo do outro lado da cidade, se sente em casa, se sente da família.

E não se engane: o que eles sentem por você não é afeto. Não é gratidão. É um ressentimento que amarga as lágrimas que caem quando alguém não está vendo e com as quais todos nós teremos que lidar mais cedo ou mais tarde.

Injustiças como estas não ficam impunes por muito tempo. Os grilhões invisíveis e indestrutíveis que por muito tempo imobilizaram Madalena ainda cairão sobre essa sociedade que insiste em não se olhar no espelho, reconhecer sua feiura e lidar com ela.

Siga livre, Madalena.

Que você, agora aos 60 anos, descubra que as mãos brancas também podem afagar e acolher.

E que o jornalismo seja essa importante janela que abre também para dentro, e mostre o que precisa ser visto no interior de cada um de nós. Foi ao assistir uma reportagem sobre trabalho escravo que alguém tocado pela situação de Madalena fez a denúncia e reconheceu que o problema que parecia ser de Madalena, pertence, de fato, a cada um de nós. Tenhamos nós também a coragem que ela teve de tocar outras mãos, diferentes das nossas, e não largar até que seja justo para todos.

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