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Fatos e mitos sobre as jornadas de 2013

Foi uma agradável surpresa abrir os jornais e encontrar uma tempestade de artigos, entrevistas e matérias sobre as jornadas cívicas de junho de 2013. Tiveram o mérito de reavivar a memória e a reflexão sobre fatos importantíssimos ocorridos no Brasil e que estavam um tanto esquecidos.

Lembremos. As jornadas de 2013 foram desencadeadas contra o aumento de 20 centavos nas passagens do transporte coletivo de São Paulo. De repente, num fenômeno social inédito na história brasileira, um rastilho de pólvora espalhou a chama por todo o território nacional. A insatisfação social armazenada explodiu nas ruas em torno de uma agenda difusa de insatisfação com a qualidade dos serviços públicos e com a corrupção.

Não havia palanque, nem dirigentes do movimento. Era um movimento espontâneo e apartidário. Não havia pauta clara de reivindicações, estratégia de mobilização ou coordenação centralizada.

Foram manifestações impressionantes, predominantemente de jovens de classe média urbana. O Brasil se preparava para receber a Copa do Mundo em 2014, com grandes investimentos em construção e reforma de estádios de futebol. Criou-se o mote: “Queremos educação, saúde e transporte padrão Fifa”. O 7×1 para a Alemanha parece uma vingança do destino.

Cada um ia para a rua com sua faixa ou cartaz pessoal, manifestando suas angústias, esperanças e insatisfações. A corrupção era outro foco. Lembremos que o julgamento do mensalão bateu recordes de audiência, em 2011 e 2012, através da TV Justiça, popularizando figuras como o ministro do STF Joaquim Barbosa.

Infelizmente, os Black Blocks mascarados se infiltraram, promoveram quebra-quebras e deram fim às lindas, cidadãs e poéticas jornadas de 2013.

O que me incomodou em parte das análises foi um “tour de force” para conectar as jornadas de 2013 com a vitória de Jair Bolsonaro em 2018. As jornadas revelaram uma grave insatisfação com o sistema político. Mas a relação de causalidade termina aí.

Esquecem alguns que, em 2014, Aécio Neves quase ganhou de Dilma Rousseff. Que em 2015, entramos na maior recessão de nossa história. Que o impeachment de Dilma reavivou os movimentos de rua, com outra natureza e dinâmica. Até este momento, Bolsonaro tinha apenas 8% das intenções de voto para a presidência da República (Datafolha).

No primeiro semestre de 2017, vieram a público as delações premiadas da Lava Jato, amplamente divulgadas pela TV, e tiveram lugar os fatos envolvendo o empresário Joesley Batista. As estruturas políticas tradicionais foram confrontadas e o desgaste foi enorme. Vivemos a crise do governo Temer. Foi aí que Bolsonaro, como outsider, em nome de uma “nova política” alcança o patamar de 16%. Em abril de 2018, Lula foi preso. O sprint final para a vitória só se deu após o monstruoso atentado, durante a própria campanha, no segundo semestre de 2018.

O ponto que gostaria de realçar é que as jornadas de 2013 foram um evento histórico de grande importância, sendo a maior manifestação de massas espontânea e difusa que se tem notícia no Brasil. Mas, os resultados das eleições gerais de 2018 têm muito mais a ver com os acontecimentos havidos no interregno entre as jornadas de 2013 e a eleição de Bolsonaro.

Fora isso: Viva o espírito cidadão e participativo presente nas memoráveis jornadas de 2013!