Colunas

Perdoar e esquecer

Instalação de Paulo Pinto e Dori Negro é censurada em Portugal (Foto: Wura Moraes/Divulgação)

Não que eu possua qualquer orgulho em admitir, mas não tenho mais idade ou cara-de-pau para negar uma verdade irrefutável sobre mim: sou extremamente rancorosa. Custa um tanto para conseguir esgotar toda a quilometragem da volta ao mundo que pode ser dada com meu papel de trouxa. Mas uma vez que ele tenha acabado, é difícil – mas até que não impossível – que eu dê a outra face, perdoe e esqueça, ou siga qualquer caminho cristão ao olhar de volta para quem ou o que me magoou. Mas algumas coisas não se perdoa, não se esquece e não se supera, certo?

Essa semana, meu amigo Zé mandou um vídeo de um jovem português reclamando que os brasileiros “não superam” a “história do ouro”: “tem sempre algum para dizer que nós roubamos o ouro deles. Supera!”. Embora seja uma piada, como já contei aqui, é constrangedoramente perceptível a visão de parte de Portugal de que a gente deveria fingir que a colonização  – e todas as violências possíveis que decorreram dela – simplesmente não aconteceu. Ou é algo que “ficou no passado”, “tem que se andar em frente”. 

“Quem bate esquece, quem apanha, jamais”. E as cicatrizes das surras históricas que tomamos enquanto colônia seguem impressas por muitas gerações. Nisso, Brasil e Portugal são idênticos: quem oprime sempre brigará pelo seu direito de continuar a fazê-lo. Mas a qualquer sinal de reação de quem sofre opressão, “ah, não é bem assim, e a liberdade de expressão? bla bla bla”. Balela.

Não faz muito tempo que acompanhei aqui de Portugal o (devido) quiprocó com o “humorista” Léo Lins, que foi proibido de seguir fazendo piadas racistas e que ferem diversas outras minorias. Não custou o argumento de que isso era censura ao humor. Inclusive, um “humorista” português chegou a dizer que no Brasil estava ilegal gozar (num trocadilho muito do chinfrim referindo-se a fazer humor, mas propondo um piadão com um orgasmo, no português brasileiro).

É fácil questionar a liberdade de expressão quando nunca se é o alvo da (pretensa) piada. Moleza achar um saco a insistência daquele povo que diz “ahhh, mas vocês roubaram nosso ouro”, quando quilos e quilos do metal cobrem altares, bibelôs e outros luxos de quem tem a mesma nacionalidade que a sua. E é natural que não se queira perder o precedente eterno de fazer e dizer o que se quer impunemente ao longo da história. Basta se encaixar nas caixas certas: homem, branco, cis, hétero, europeu…Mas é no mínimo (muito) ridículo, a esta altura do campeonato, não querer largar esse osso, convenhamos.

Quando o jogo vira e quem pleiteia liberdade de expressão é quem historicamente prescindiu dela, seu status de direito universal some rapidinho. Zero surpresas.

Recentemente, a exposição Vento (A)Mar, dos artistas Dori Nigro e Paulo Pinto, foi inaugurada no Hospital do Conde de Ferreira. Meia hora depois da abertura, a sala onde estava instalada uma obra alusiva ao passado escravagista do patrono do hospital foi fechada pela Misericórdia do Porto, que tutela o  hospital. O argumento era de que a alusão aos milhares de pessoas escravizadas pelo conde, que as levou de Angola para o Brasil e as vendeu aos proprietários dos engenhos de açúcar, poderia causar “desconforto” aos doentes do centro hospitalar. Setores da esquerda e a própria Câmara da cidade do Porto foram contra a censura da instalação “Adoçar a Alma para o Inferno III”. Mas na prática, a peça não está mais lá, não existe mais neste espaço, restam só que não têm referências explícitas ao passado escravagista do conde. 

Como é possível que se varra um fato histórico para baixo do tapete? Quem tem direito a falar do passado? Quem tem direito a falar no presente?

Se é verdade que a liberdade de expressão só é reconhecida para alguns, o mesmo não vale para o rancor, que é democrático, didático e bom para a memória. Tem dores que não se perdoa ou esquece. Insistentemente.

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